domingo, 25 de outubro de 2009

A HORA DA LOBA

Eu quero ser uma loba.
Daquelas de pêlos brancos e compridos, olhos azuís e penetrantes, pra poder te olhar e saber que teu reflexo brilha em meu rosto.
Quero poder ser livre. Não presa, nem caçada por predadores famintos ou cruéis. Eu caço. Eu sou loba.
Correr por entre árvores e folhagens, sentindo o carinho que a natureza faz em minhas costas largas... Os pêlos eriçados em cada toque, em cada resvalar dessa mata fechada e sem fim. Agora sou loba.
Sinto o vento em minha cara. Meu focinho frio e molhado detecta a presença e aproximação de outro ser. Pequenino ser. Não, não estou com fome agora. Minha única necessidade básica é a sede. Saio despreocupada num caminhar desleixado, pela trilha que me leva ao lago. Já é quase noite.
Noite. E a maravilha do lugar me envolve e me seduz uma vez mais. O murmurar das águas batendo suavemente nas pedras em torno do lago, a calma do entardecer trazendo a escuridão que chega aos poucos e acende cada lampiãozinho lá no céu, pra que nunca fiquemos sem uma esperança... E a troca de turno dos animais que antes dormiam para agora viverem despertos nesta mata que muda de cenário ao anoitecer. São grilos e cigarras e corujas e...
Depois de saciar minha sede, deito na pedra mais alta e aguardo ansiosa pra apreciar a beleza que vem sempre na mesma hora. Meu coração dispara e meio sem jeito tento cravar meus olhos nela, mas... não consigo na primeira tentativa. Timidamente olho pra sua imagem distorcida na água. Ela dança e se desfaz com o balouçar que o vento produz. Sua luz alumia toda extensão do lago e ela é revigorante. Brilhante, brilhante, mostrando detalhes prateados que de dia seriam impossíveis para o rei Sol sequer pintar.
Crio coragem, afinal sou uma loba, e a encaro.
Meus olhos se marejam, meu sal compete com as águas doces que me saciaram e pela sua clareza meu rosto todo se ilumina, meu ser por inteiro se sente feliz, vibrando.
Aí a magia acontece: Por instinto, sei lá, loucura, talvez, necessidade, quem sabe, meus pêlos todos se arrepiam, minha boca seca novamente. Levanto num ímpeto, estou presa em seu olhar infinito. É como se houvesse um facho de luz e energia unindo duas filhas da natureza. Uma alta, gigante, brilhante, impenetrável e inatingível. A outra animal, instintiva, humilde e solitária. Mas o que as une é muito forte.
Eu sinto o calor subindo, queimando meu estômago, meu peito... começo a arfar, procurando o ar e fico salivando sem parar.
Perco o controle de meus atos e é só o instinto falando e agindo agora. Sinto como se estivesse fora deste corpo e me olhasse como um expectador assustado, surpreendendo-me a fazer coisas insanas.
Olho mais fixamente pra ti e a vejo luzir mais e mais. Como és linda! Incontrolavelmente minha boca se abre e um ruído rouco vem saindo de minhas entranhas. Primeiro sai seco e surdo, depois, vencendo a timidez e ganhando terreno, assusta o mais corajoso guerreiro que se aventura por essas bandas...
_Uivo pra você, por você, minha Lua!
Solto todo o verbo que tenho, minhas últimas forças e então deito exaurida e satisfeita, numa mistura de libertação e gôzo...
Por fim, adormeço.

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