quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Inocente

Depois dela, algumas mulheres pousaram em meu leito. Sim, amassando o travesseiro, deixando revoltos os lençóis. Apenas pousaram, repousaram. Amizades novas e reconfortantes, companhias noturnas da solidão dos dias. De uma só roubei um beijo. Apenas um assalto no escuro sem face, a venda da noite pressionando meus olhos pra não ter culpa, pra não ter responsabilidade. Gesto impensado na madrugada, não medindo consequências, apenas desejando resultados. Retribuição automática, sonolenta, acordada/dormindo, sua língua envolveu a minha. O beijo roubado tinha cúmplice. Crime sem testemunhas, podia ser o golpe perfeito. Mas o ar de sua graça alçou vôo e me deixou na nuvem mais próxima, pois seu corpo estava lá, mas seu coração há muito se fora. Não houve vítimas, apenas pessoas adultas envolvidas. Envolvi-me no lençol, cobri minha vergonha e esqueci meu pequeno delito.
Mas não me esqueci dela. Quem sabe em outras paragens, em outro destrito possamos burlar a lei e ir até o final. No fim, esse crime, tenho certeza que compensa.