sábado, 26 de janeiro de 2013
Luzes dos meus passos
Sigo andando. Meus passos me levam para frente, com minha sombra muito maior do que eu mesma, dependendo dos postes de luz por quais passo. Hora aumenta, hora diminui, mas ela está sempre ligada a mim. A sombra. Ela nunca vai me abandonar, nunca. É por meio da sombra que sigo também a poesia da luz, ou a ausência dela (da luz, não da poesia). Essa outra já é bem vibrante quando chego no ponto de ônibus. O que ofusca minha vista é o luminoso junto ao banco, contornando uma figura feminina que está à espera do coletivo. Sua silhueta negra já de longe dá um descanso aos meus olhos e asas à minha imaginação, que insiste em forçar a vista para imaginar os contornos de claro e escuro que devem estar ali, mostrando os detalhes que a escuridão apagou de seu rosto. Chego mais perto e perco o interesse, pois é o luminoso do ônibus que me chama a atenção nesse momento. Não, não é o meu. A silhueta, agora com rosto, entra e vai-se embora, já iluminada pelas luzes do coletivo. Luz meio apagada, meio piscante. Eu fico, vejo as mesmas irem embora riscando a noite. Mais carros passam, mais riscos vermelhos, brancos, amarelados, neon - que luz incômoda, essa, devia ser proibida. Ah, chegou o meu ônibus. Esse que serve pra mim, meu caminho, minha parada. O motorista me convida a entrar, quase vejo meu reflexo de relance na porta. Entro, cumprimento e entro no comprimento de onda dessa mesma luz fluorescente, piscante, meio morta do ônibus. Acho um banco iluminado e vazio, ali, logo depois da catraca. Sento. Ufa, cansei. Dia longo, me perco de novo nas luzes riscantes lá fora, encostro na janela e o pensamento e os olhos se põem a vagar. Meu próprio rosto impresso na janela do vidro, com brilho transparente me distrai. Fixo meu foco longe e sumo da minha vista, dando espaço para as imagens iluminadas lá fora. Poste de luz, carros parados, brilho do farol, sombras de outrem, um risco de luz veloz, mais uma moto. Faróis do carro iluminam pedestres esperando o verde chegar. O brilho do vermelho escapa do sinal e fica ainda na minha retina, insistente. Agora muda de cor. O seu complementar verde é que vai tomando lugar. Fico brincando com essa imagem latente desviando meus olhos e colocando-a em outro local, na testa de um adolescente espinhudo que acabou de passar pela catraca. Ele me olha e passa batido, a imagem se desfaz por completo. Olho as luzes do Shopping Bourbon lá fora. Iluminam cada vão, várias cores, desenhando os contornos do prédio de forma divertida. Acho que não vou pra casa. Aperto o PARE e a luzinha amarela acende. Acho que dá tempo. Desço rápido, me dirijo para a porta também iluminada do shopping. Profusão de luzes, uma mais vibrante, diferente das outras. As vitrines querem chamar atenção para si, são vaidosas. Nossa vista até cansa, não sabe para onde olhar e fico passeante, como meus olhos, sem conseguir fixar num ponto só. Fastio. Olho para o chão: mármore enceradíssimo, meio rosado, desenhos ornamentais, qual o quê que consigo fugir dos mil brilhos. O reflexo vai desconstruindo todas as luzes em pedaços multifacetados, multiplicando o que antes não era tanto. Fico passeando pelas mesmas luzes, só que agora são distorcidas pelo piso. Meu passo não desacelera. Sei onde vou. Um lugar onde possa fugir desse brilho todo. Chego enfim. Escolho, pago, entro, sento. Ufa, cansei. O escurinho me dá tranquilidade, fecho os olhos para descansar mais um pouco, os últimos reflexos e imagens se desfazem em minha pálpebra fechada e escura. Suspiro e abro os olhos. Como uma explosão, clarão total: a tela se acende. O filme vai começar... de novo!
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Um comentário:
oi pequena, tu achas que eu não olho o que escreves, mas estas enganada. Por isso coloquei alguns comentários em dois dos teus textos.
Este em especial, é você, uma luz em movimento. Ora branca e suave, ora vermelho paixão, ora um arco-iris explodindo em criatividade e beleza.
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